Existe uma curiosa contradição.
Nunca soubemos tanto sobre o mundo. Temos dados, especialistas, modelos matemáticos e capacidade de processar informações. Ainda assim, continuamos tomando decisões equivocadas justamente quando mais precisamos acertar.
Talvez porque tenhamos insistido em responder perguntas erradas.
Durante muito tempo acreditamos que o grande desafio da vida era compreender o mundo. Hoje sabemos que isso não basta. Compreender o mundo, tarefa que, aliás, ainda está muito longe de ser concluída, é apenas metade do problema. A outra metade consiste em compreender como nós mesmos reagimos a ele.
Edgar Morin dedicou boa parte de sua obra a mostrar que a realidade não pode ser reduzida às suas partes. Um organismo não é apenas um conjunto de órgãos. Uma sociedade não é apenas um conjunto de indivíduos. E um patrimônio tampouco é apenas um conjunto de ativos.
Patrimônio é tempo, família, trabalho, objetivos, impostos, sucessão, saúde, comportamento e mercado. É um sistema vivo. Por isso tantas soluções aparentemente brilhantes fracassam quando saem da planilha para a vida.
Mas existe um segundo problema.
Mesmo que conseguíssemos compreender toda essa realidade, continuaríamos sujeitos a outro fenômeno tipicamente humano.
Zygmunt Bauman descreve uma época em que quase tudo se tornou provisório. Relações, certezas e convicções parecem durar menos do que antes.
Possivelmente a volatilidade dos mercados não tenha aumentado tanto quanto a volatilidade das nossas próprias convicções.
Basta uma manchete. Uma crise política. Uma nova previsão econômica.
Curiosamente, quase nunca mudamos porque refletimos melhor.
Mudamos porque sentimos mais.
É a chamada modernidade líquida.
É nesse ponto que Nassim Taleb desloca a pergunta.
Em vez de perguntar como prever o próximo choque, ele pergunta como construir sistemas capazes de atravessá-lo sem depender da capacidade de prevê-lo.
A resposta não está em aperfeiçoar previsões.
Mas em aperfeiçoar métodos.
Existe, porém, uma prática simples do planejamento patrimonial que reúne todas essas ideias.
Chama-se rebalanceamento.
De maneira técnica, define-se previamente uma distribuição estratégica entre diferentes classes de ativos e, em datas predeterminadas, nunca em resposta às manchetes do momento, essa distribuição é restaurada sempre que as oscilações do mercado a modificam.
A descrição está correta.
Mas ela não explica por que o rebalanceamento existe.
Ele não reorganiza apenas a carteira.
Reorganiza o investidor.
Quando a parcela destinada ao longo prazo cresce muito além do planejado, vendemos uma parte. Não porque saibamos que o mercado irá cair. Vendemos porque decidimos, muito antes, que essa seria a atitude correta.
Quando essa mesma parcela sofre uma queda expressiva, fazemos o movimento inverso. Compramos. Não porque tenhamos certeza de uma recuperação. Compramos porque esse compromisso também havia sido assumido antes que o medo chegasse.
O mercado continua imprevisível.
Nós é que deixamos de improvisar.
Costumamos procurar a antifragilidade nos ativos ou nas carteiras.
Será que estamos olhando para o lugar certo?
Ela parece pertencer, antes de tudo, ao processo de decisão.
A volatilidade continua existindo.
O que muda é sua função.
Antes, comandava nossas decisões.
Agora, alimenta o método. Torna-se aliada do investidor.
A mesma força que costuma produzir euforia e pânico passa a produzir disciplina.
Muito antes de Taleb, Aristóteles já intuía algo semelhante. Chamava de prudência a capacidade de agir corretamente diante das circunstâncias concretas da vida. Não era a qualidade de quem antecipava o futuro, mas de quem cultivava hábitos capazes de produzir boas decisões quando o futuro incerto finalmente chegasse.
O rebalanceamento transforma essa prudência em procedimento.
Ele não elimina nossas emoções.
Reconhece que elas existirão.
E, justamente por isso, transfere para o presente, momento sereno do planejamento, decisões que jamais deveriam ser tomadas sob o domínio do medo ou da euforia.
Podemos enxergar o rebalanceamento como um pacto entre duas versões de nós mesmos.
O eu racional de hoje.
E o eu emocional de amanhã.
O primeiro sabe que previsões falham.
O segundo ainda não sabe como reagirá quando elas falharem

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