
Leis, empresas, fronteiras, instituições, direitos, nações. Construções abstratas que organizam nossa vida e produzem consequências muito concretas. Elas existem porque somos capazes de imaginá-las e, sobretudo, porque conseguimos acreditar coletivamente nelas (Harari).
Essa é uma das características mais extraordinárias de nossa espécie. Compartilhamos aquilo que só existe como ideia e, a partir disso, construímos cidades, assumimos compromissos e organizamos sociedades inteiras.
Há, porém, uma abstração mais íntima. Nós a visitamos todos os dias, fazemos planos em seu nome, tememos sua chegada e passamos boa parte da vida tentando prepará-la: o futuro.
Uma criança que será adulta, uma árvore que dará sombra, uma floresta recuperada, uma obra concluída, uma velhice tranquila. Não apenas imaginamos essas possibilidades. Agimos no presente em nome delas.
Quase todas as nossas escolhas carregam alguma troca entre presente e futuro. Antecipamos satisfações ou as adiamos. Usufruímos ou preservamos. Em cada uma dessas decisões atribuímos algum valor ao amanhã (Giannetti).
Curiosamente, aprendemos a chamar boa parte dessa troca de sacrifício.
Abrimos mão hoje para desfrutar depois. Suportamos o caminho para chegar ao destino. Aceitamos o esforço presente em nome de uma recompensa futura.
Mas será que toda espera precisa ser vivida como privação?
Conta-se que Sócrates, depois de caminhar pelo mercado de Atenas e observar tudo o que estava à venda, teria manifestado sua satisfação diante da quantidade de coisas das quais não precisava (Giannetti).
Não há sofrimento em não levar. Há prazer em não precisar.
Estamos acostumados a colocar o prazer no outro lado da equação. Gostamos da sombra e chamamos o plantio de esforço. Gostamos da chegada e suportamos o caminho. Esperamos pela floresta e esquecemos de olhar para a muda.
A recompensa precisa esperar?
Há uma história atribuída a Prudente de Moraes que leva essa inversão ainda mais longe. Conhecido por seus hábitos econômicos, teria sido provocado com a ideia de que seus descendentes acabariam desfrutando aquilo que ele passara a vida guardando. Sua resposta, no mínimo interessante: teria dito que “eles não sentiriam tanto prazer em gastar quanto ele sentira em guardar.”
Verdadeira ou não, a provocação permanece.
O prazer já havia acontecido.
Podemos, então, pensar o sacrifício de outra maneira. Não apenas como a troca de uma satisfação presente por outra futura, mas como a possibilidade de ampliar o território em que encontramos prazer.
Gostar de plantar, aprender, preservar, construir. Gostar de acompanhar alguma coisa que cresce lentamente. Gostar até daquilo que deixaremos para quem está por vir.
Parte do amanhã pode ser vivida hoje.
Mas essa relação com o futuro não é apenas individual.
Sociedades também constroem escolas cujos resultados demoram a aparecer, preservam instituições destinadas a sobreviver aos seus criadores e recuperam florestas que levarão décadas para crescer. Fazem coisas para pessoas que ainda nem nasceram.
Quando a confiança nesse amanhã compartilhado se enfraquece, a lógica muda: retirar enquanto há, aproveitar enquanto é possível, proteger o próprio espaço antes que outro o faça, “salve-se quem puder”.
Um círculo perverso. Quanto menos acreditamos no futuro coletivo, menos participamos de sua construção. Quanto menos o construímos, menos razões encontramos para acreditar nele.
Uma sociedade não precisa apenas aprender a planejar melhor o amanhã. Precisa também aprender a desejá-lo.
Somos a espécie que conseguiu compartilhar abstrações e, a partir delas, construir uma realidade comum. O futuro também pode fazer parte dessa realidade compartilhada.
Não se trata de viver para amanhã, nem de transformar o presente numa sala de espera.
Há possibilidades de futuro que começam a ser desfrutadas enquanto são construídas.