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Investimentos20 Ago 2026Por João Di Giacomo

A Travessia do Zero

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Na mitologia grega, os mundos não eram completamente separados. Hades governava o mundo subterrâneo; Zeus, o alto do Olimpo. Entre eles circulava Hermes, senhor dos caminhos e das fronteiras, um dos poucos capazes de transitar entre mundos.

Talvez exista algo parecido em nossa relação com o dinheiro.

Há um território em que o tempo trabalha contra nós. Nosso Hades financeiro. Dívidas acumulam juros, parcelas comprometem uma renda que ainda não chegou e o passado começa a consumir o futuro.

No Brasil, quase 84 milhões de pessoas estão negativadas. Em julho de 2026, o número chegou a 83,9 milhões, o maior já registrado pela série histórica da Serasa.

São números grandes o suficiente para impressionar e, justamente por isso, esconder pessoas: quem perdeu renda, quem enfrentou um imprevisto, quem tomou decisões ruins, quem nunca aprendeu a organizar o próprio dinheiro. Quem tinha uma dívida administrável que, sob o peso dos altos juros, deixou de ser.

Mas o mapa é mais complexo.

Há endividados que também investem, famílias com patrimônio e pouca liquidez, pessoas sem dívidas que chegam todos os meses exatamente ao zero. Há quem esteja formando uma reserva, quem já poupe para seus objetivos, quem invista e quem tenha construído patrimônio suficiente para pensar em liberdade financeira.

Situações diferentes, estratégias diferentes.

Ainda assim, existe uma fronteira.

O zero.

De um lado, parte da renda futura já pertence a alguém. Do outro, começamos a construir provisão para nós mesmos.

Atravessar essa fronteira, porém, não significa necessariamente pagar a última dívida. Começa antes: quando decidimos olhar para nossa situação, compreender quanto entra, quanto sai, o que devemos, o que possuímos e para onde estamos caminhando.

Renda, consumo, dívida, liquidez, poupança, investimento e patrimônio são partes de uma mesma equação.

A equação invisível da vida.

É aqui que Hermes reaparece.

Para alguns, a travessia começará pela renegociação de uma dívida. Para outros, pela redução do consumo ou pela construção de uma reserva. Outros já estarão prontos para poupar e investir.

Não há um único ponto de partida.

Há, entretanto, uma direção.

E o tempo importa porque amplifica escolhas. Dívidas podem alimentar dívidas; pequenas sobras podem formar reservas; reservas podem tornar-se investimentos; investimentos, patrimônio.

O tempo trabalha dos dois lados da fronteira.

E Zeus?

Talvez esteja no alto dessa metáfora, não como símbolo de riqueza ou acumulação, mas de equilíbrio: uma provisão devidamente dimensionada entre aquilo que ganhamos, consumimos, guardamos e o tempo que ainda temos pela frente.

Um equilíbrio a ser revisitado, porque a vida muda.

Esta travessia não é um convite para que 84 milhões de brasileiros se tornem investidores.

É um convite anterior, muito mais modesto.

Um convite a cada um, individualmente: olhe para sua própria equação.

Não é preciso atravessar hoje. Antes da travessia vem algo ainda mais simples.

Em que lado da fronteira estou? Para que lado estou caminhando?

Hermes conhecia os caminhos.

Não escolhia o destino

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